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O direito à ternura
Luis Carlos Restrepo.
Estamos acostumados a opinar sobre os grandes direitos públicos, aqueles que figuram em códigos e constituições, fazendo parte de discursos políticos e promessas eleitorais. Fala-se do direito ao emprego, do direito à habitação, do direito à educação. Como reivindicações sociais de transparência inquestionável. Mas parece suspeito e até ridículo falar daqueles direitos da vida cotidiana que permanecem confinados à esfera do íntimo, sem que ninguém ouse pronunciar seus nomes nas reuniões em que se debatem com grandiloqüência os problemas políticos da época. A esta categoria de direitos domésticos, relegados e vergonhosos, pertence o direito à ternura.
Esse dualismo: direito público e privado é muito interessante, pois ao separar uma esfera da outra, impedimos que a análise sobre o político e o social chegue até as parcelas protegidas, onde se aninha a ideologia. Com esta dicotomia asseguramos a impessoalidade de uma zona fundamental para a constituição dos sujeitos, ficando por isso mutilada a análise que possamos conseguir dos grandes acontecimentos políticos. Tudo é ordenado de tal forma que só o público apareça como fato relevante, fiando completamente separa da rede à qual se articula como acontecimento humano e cotidiano. O privado está por definição condenado ao esquecimento e ao anonimato. Relegada à esfera do privado, a ternura é obrigada a excluir-se do mundo do público, onde sua palavra parece não ter nenhuma validade.
A ternura só é reconhecida como parte do amor maternal ou na relação da criança com seu ursinho de pelúcia, quando o homem se atreve a falar do tema aparece o fantasma da efeminação. Na sexualidade também não tem cabimento: em vez de ser considerada como um ato de ternura é concebida como um ato de conquista. A ternura é um paradigma de convivência que deve ser adquirido no terreno do amoroso, do produtivo e do político, arrebatando palmo a palmo, territórios em que dominam há séculos os valores da vingança, da sujeição e da conquista. Ditames de nossa cultura proíbem ao homem falar da ternura ou abrir-se à linguagem da sensibilidade, pois sua educação lhe ensinou a mostrar dureza emocional e autoridade a toda prova.
Não conseguimos conceitualizar ainda o importantíssimo papel da afetividade, não só na vida cotidiana, mas também em dimensões onde até pouco ela era considerada um estorvo, como é o caso da pesquisa científica. A ciência nos fez crer que só podemos conhecer o outro o decompondo, e estendemos essa prática à vida afetiva e às nossas relações com o outro. Dessa forma, acabamos nos relacionando como se estivéssemos “mutilados”, sem incluir nosso lado afetivo e sem permitir que as pessoas nos conheçam “como um todo”.
Há alguns anos ainda acreditávamos que as máquinas poderiam substituir-nos nas tarefas fundamentais. Por isso era freqüente representar o futuro como uma sociedade robotizada. Este sonho terrível foi-se dissipando no horizonte científico e social, porque agora está claro, se o robô pode reproduzir certas funções e atividades humanas, ninguém conseguiu inventar um computador capaz de sentir, de comprometer-se com o entorno, de chorar ou de rir.
O que nos caracteriza e diferencia da inteligência artificial é a capacidade de emocionar-nos, de reconstruir o mundo e o conhecimento a partir dos laços afetivos. É a convivência interpessoal.
Nós, cidadãos ocidentais, sofremos uma terrível deformação, um pavoroso empobrecimento histórico que nos levou a um nível de jamais conhecido de analfabetismo afetivo.
O nosso analfabetismo afetivo dificulta a compreensão das raízes do nosso sofrimento e nos impede de encontrar chaves para melhorar nossa vida cotidiana. Indistintamente, ricos e pobres, iletrados e pós-graduados todos acabam enredados em suas relações afetivas que os dilaceram numa frustrante solidão.
Restrepo propõe um novo Homem, uma nova sociedade a partir de um sentimento genuinamente humano que é a ternura. O autor reafirma a necessidade da formação de um Homo-fraternalis, talvez uma nova espécie voltada para a paz, harmonia com o meio ambiente e gerador de uma sociedade pautada em valores mais verdadeiros e transformadores, capaz de produzir um corpo saudável a partir das experiências do sentir, e da pratica das emoções como propulsora de saúde e bem estar pessoal e comunitário. Talvez estejamos na transição entre a sociedade de mercado para a sociedade do afeto. Mas pelo que o ser humano apresenta no momento, a fase de transição ainda vai durar muitos e muitos séculos.
Cabe a nós, antecipar e concretizar essa etapa.